O Diário de Notícias, explorando a deplorável manchete da “encomenda” do Presidente, fez novamente alarido com o facto de Fernando Lima permanecer em Belém — facto conhecido há meses. O ângulo noticioso revela uma preocupante tendência da imprensa portuguesa: fazer notícia de tudo o que deveria estar abaixo da superfície, ou, utilizando uma expressão do meio da comunicação empresarial, below the line: assessores de imprensa, agências de comunicação, consultores de imagem e afins. Nada que tenha interesse público e que, em sociedades mediáticas evoluídas, nem merece referência. Quando estes serviços colidem com algum princípio de legalidade, a denúncia jornalística deve ser feita. De resto, é ignorá-los e remeter a responsabilidade para o contratante. Como deveria ter sido feito no caso de Lima.
Thursday, November 26, 2009
Abaixo da superfície
Wednesday, November 25, 2009
25 de Novembro, sempre
Passados os devaneios totalitários do pós-11 de Março, um conjunto de militares fez o 25 de Novembro de 1975, marca fundadora da democracia portuguesa. Nunca houve, contudo, tradição de comemorar a verdadeira data da liberdade. Talvez porque a sociedade, encostada ao lado esquerdo do espectro político, tenha ficado refém do “espírito” dos meses do Verão Quente: estatização, proteccionismo, subsidiodependência, colectivismo. Em suma, pouca margem para o liberalismo económico, a meritocracia, o empreendedorismo. O que explica, em grande parte, o estado de desenvolvimento económico actual. Devem os militares do grupo dos Nove estar a dizer: “Não foi para isto que fizemos o 25 de Novembro”.
Tuesday, November 24, 2009
Fala, fala, fala
Seria interessante verificar, num dos estudos métricos que a ERC faz sobre a comunicação social, quanto tempo o primeiro-ministro despendeu a falar sobre processos judiciais em que o seu nome está envolvido, ao invés de se pronunciar sobre a governação do país.
Monday, November 23, 2009
SOS cagarro
A quem pudesse pensar que os “cagarros” estariam em vias de extinção, causaria supresa o avistamento de cerca de 350 espécimes na capital, no passado fim de semana — o encontro nacional de marienses. O que antes era um irreverente convívio de juventude expandiu-se e institucionalizou-se (presenças de presidente da câmara, director regional da juventude, representante especial da República). Abrange todas as gerações, traz ao continente a tradição gastronómica e musical, divulga a cultura local contemporânea e, sobretudo, faz com que haja um elo de ligação à ilha do Sol. E, consequentemente, promove a vontade de retorno às origens — temporária ou definitiva. Um SOS para uma ilha cada vez mais desertificada.
Tuesday, October 20, 2009
Wednesday, October 14, 2009
Nem de encomenda
Perante a perplexidade dos espectadores, pouco interessados em denúncias de fontes, rivalidades de jornais e encomendas partidárias, o Prós e Contras de anteontem dedicou-se a debater, durante mais de uma hora, o caso das “escutas”. No meio do destilar de rivalidades pessoais e de justificações atabalhoadas, ninguém abordou a questão principal. Um jornal publica que a Presidência suspeita de estar a ser vigiada pelo Governo — notícia em qualquer parte do mundo. O periódico rival, em vez de seguir a pista, decide delatar a fonte da história. E, para cúmulo, ainda é aplaudido por parte da classe profissional. Carl Bernstein e Bob Woodward, a saberem da história, devem dar graças por não trabalharem pelos parâmetros portugueses: se os rivais do Washington Post fizessem o mesmo que o DN no caso Watergate, Nixon nunca se teria demitido. Mark Felt, alto funcionário do FBI que expôs a paranóia presidencial, seria logo denunciado por estes “gargantas fundas” do jornalismo português.
Tuesday, October 13, 2009
Olhar o futuro
Ufano como sempre, Carlos César clamou vitória nas autárquicas a nível Açores, pelo ineditismo da maioria das câmaras conquistadas pelo PS. A ilha do Sol, em sentido contrário, libertou-se do feudo socialista que imperava há 30 anos e (espera-se) do consequente marasmo económico, social, cultural e político. Nem as promessas, acordos, requalificações, apoios, inaugurações, cedências e protocolos anunciados pelo governo regional conseguiram travar a vontade de mudança dos cidadãos, saturados do aparelhismo tentacular socialista. Factor essencial para que uma equipa de independentes integrados na lista do PSD, com propostas alternativas e uma campanha profissional, vencesse as eleições — provando que a democracia funciona quando as pessoas estão motivadas e conscientes do seu papel cívico. Como se escreveu aqui anteriormente, não existe progresso sem mudança. Está lançada a premissa para que a ilha do Sol possa olhar o futuro com optimismo.
Friday, October 9, 2009
Antes de tempo
Da galeria de notáveis que foram galardoados com o prémio Nobel da Paz, Obama terá sido o único que o recebeu por antecipação. Nem é o inerente carácter belicista de qualquer presidente americano que causa estranheza no prémio. É a simples falta de qualquer realização concreta de Obama antes ou depois de iniciar o mandato — salvo um conjunto de boas intenções diplomáticas. Talvez o jurí do prémio deva sair da reclusão escandinava e voltar a distinguir alguém que tenha contribuído com algo real para a pacificação de zonas em conflito.
Wednesday, October 7, 2009
Alternância democrática
Tornou-se um lugar comum afirmar que o progresso é impossível sem mudança. Por este facto, a alternância democrática deve suceder em qualquer sociedade, independentemente do partido que ocupa o poder. Na ilha do Sol, uma força partidária governa a autarquia há 30 anos — com os resultados que todos podem avaliar. Como alternativa, existe um grupo de cidadãos, a maior parte independentes, que apresenta um ambicioso conjunto de propostas para o futuro. Uma mudança necessária para retirar a ilha da aparente estagnação social, económica e política. E implementar uma nova perspectiva de progresso.
Tuesday, October 6, 2009
No campo de Santana
O sempre veemente Miguel Sousa Tavares escrevia, em 2004, que se Pedro Santana Lopes chegasse a primeiro-ministro, emigraria para o Brasil. Além de ter permanecido na pátria lusa, assiste, em 2009, a uma recandidatura do enfant terrible à autarquia da cidade onde reside. Mas os intentos de abandonar Lisboa, caso Santana seja reeleito, parecem estar refreados. “(...) a verdade é que o oiço propor várias coisas que me parecem tão evidentes quanto necessárias e simples: repor o trânsito normal na zona do Cais do Sodré/ Terreiro do Paço; manter o aeroporto da Portela em Lisboa; impedir a terceira travessia rodoviária; não aceitar a expansão do terminal de contentores de Alcântara; não oiço nada disto à candidatura de António Costa. E aí está o dilema instalado: votar em pessoas ou votar em programas?” Uma singular análise de um anti-santanista primário, no Expresso.
Wednesday, September 30, 2009
Conselho de Estado
Cavaco Silva, por estes dias um homem isolado e acossado, terá escrito na solidão do gabinete do palácio de Belém a abstrusa declaração ao país, não a tendo revelado previamente a ninguém por mera desconfiança. Caso contrário, qualquer conselheiro político lhe diria o seguinte. “Sr. Presidente, com todo o devido respeito, não pode fazer esta declaração. Além de ser longa, confusa e ambígua, tem vários erros crassos. Irá abrir uma guerra desnecessária com o governo, antes de ter de indigitar o primeiro-ministro; irá revelar que está embrenhado e atento a tricas partidárias; irá demonstrar que pensa ingenuamente que o sistema de e-mails da presidência tem falhas; irá rebaixar-se a entrar numa guerra de jornais alinhados partidariamente; irá lançar dúvidas sobre as competências dos membros da sua Casa Civil; e, por último, irá demonstrar uma imagem de desorientação, falta de bom senso, até de alguma paranóia, o que é fatal para o chefe de Estado. O melhor que tem a fazer é dizer que não tem elementos que lhe permitam suspeitar de qualquer vigilância do Governo e matar o assunto.”
Tuesday, September 29, 2009
O submundo da política
Nunca os bas fonds da política portuguesa estiveram tão repletos como na noite eleitoral de domingo. Na sede de campanha do PSD, no hotel Sofitel, na avenida da Liberdade, o estado-maior laranja refugiava-se numa sala subterrânea (leia-se cave), escoltada por dois seguranças. A poucos metros de distância, no hotel Altis, na rua Castilho, o PS escolhia uma sala subterrânea (leia-se cave) para os discursos de vitória. À superfície, eram poucos (leia-se nenhum) os cidadãos não-alinhados partidariamente (leia-se sem cartão de militante) que saíram para celebrar a democracia nas sedes de campanha. A pouca mobilização impediu, até, os habituais festejos socialistas no largo do Rato. A política é, cada vez mais, um meio pouco frequentável.
Friday, September 25, 2009
Este país dava um filme
Dois dias faltam para as eleições e o país mediático está enredado num filme de espionagem de série B. Sucede que quem vai votar no domingo desconhece o argumento, não se identifica com as personagens e prefere fitas que reflictam a vida real: desemprego, salários baixos, endividamento, etc. E outras dificuldades do dia-a-dia nas áreas da saúde, educação, justiça, mobilidade, que uma campanha pouco esclarecedora e recheada de casos não abordou. Injustamente, o foco deixou de estar no primeiro-ministro para estar na oposição — por motivos absurdos. A governação que está a ser julgada é a de José Sócrates. Cabe aos eleitores decidir se este filme socialista merece o final ou uma sequela. E a pergunta a que o “povo” terá de responder é, de facto, muito simples: o país está melhor hoje do que há quatro anos e meio? Se a resposta for negativa, substitua-se o cavalheiro.
Wednesday, September 23, 2009
Incoerência insular
De passagem pelas ilhas, Sócrates e Ferreira Leite pensaram estar em rochedos inóspitos, sem contacto com o exterior. O primeiro-ministro, nas ilhas de bruma, foi de um populismo insuportável, ao pedir votos por ter “beneficiado” os açorianos na lei das finanças regionais; a líder da oposição, na pérola do Atlântico, foi de uma demagogia intolerável ao prometer acabar com a “discriminação” dos madeirenses sobre a mesma matéria. Ambas as frases para perplexidade dos insulares do arquipélago oposto ao de onde as declarações estavam a ser proferidas. Claro que, na busca do voto, a visita à outra região autónoma exige novo discurso. Se a coerência é difícil em política, quinze dias de campanha confirmam a impossibilidade.
Tuesday, September 22, 2009
Porreiro, pá
Comentadores profissionais e bloggers amadores (ou vice-versa) abalançaram-se, nos últimos meses, a longas dissertações sobre os quatro anos e meio de governo Sócrates. Nenhum desses insuportáveis textos se aproxima, sequer, da lucidez e acutilância do balanço feito por Augusto Cid. O ilustre faialense lançou o livro Porreiro, Pá, uma compilação de cartoons sobre a era Sócrates, publicados em vários jornais. Prefaciada por João Pereira Coutinho, a sequência exibe o sinuoso percurso do primeiro-ministro, pista para compreensão do estado actual do país. Excepcionalmente, o autor substitui o traço pelas palavras: “A presente peça em palco, vai para mais de quatro anos, saldou-se por um monumental fracasso de bilheteira... apesar do elenco insistir em pretender levá-la de novo à cena!”
P. S. – O lançamento do livro teve limitadíssima repercussão na comunicação social. Como duas outras elucidativas obras sobre o primeiro-ministro: José Sócrates, o Homem e o Líder, de Rui Costa Pinto; e o Dossiê Sócrates, de António Balbino Caldeira. Asfixia democrática ou auto-censura?